28 de dezembro de 2009

Aos ex- e as ex-

Por um vida breve e passageira, como os viadutos de Maceió que saem de nenhum lugar e nos levam a lugar nenhum. Habitar cuidadosamente as fronteiras, os não-lugares, de preferência um lugar que eu não possa chamar de meu. 'Eu'...pra que aparece no texto? Afinal, o que é isso, "eu"? O eu é algo que dorme, geralmente à noite. Ainda bem. Acho que para isso inventaram as bebidas, comprimidos, música e paixões. Repetir para lembrar, para ainda assim não querer ser lembrado e ao mesmo tempo, não suportar ser esquecido. Pensar naquilo que podemos construir no lugar de ex-. Sonhos nessa vida: me tornar um ex-fumante ou ex-alcoólatra; alguém em abstinência do uso de certas substâncias. Poder simplesmente engavetar um arquivo, saber que está lá, mas que não é mais necessário. Como uma neurose, e os seus restos; seus estragos.

Me lembro sempre de como meu pai, ex-policial que tem uma ex-esposa e três filhos, falava sobre os tiros de 12, a maneira como aquele cartucho iria se fragmentar e se espalhar pelo corpo, e sobre como esse tiro era pior que o de um 38. Mas este último pensamento, na verdade, é meu. Por que pensar nisso quando penso no pai? O pai na nossa vida é um tiro de 12 ou de 38? Ou isso nada mais é que a sombra do Outro? Escrever para poder esquecer que há um eu que tenta escrever um texto. Escrever para assim me livrar da consciência, da lembrança que no mundo sou um eu que coleciona imagens de tudo que já foi e que está sendo. O melhor dos textos é sempre aquele em que não nos lembramos como seus supostos autores. Quando falamos de um texto escrito e dizemos: "Poxa, esse texto eu simplesmente sentei na cadeira e puft!, saiu." Incrível, não?

Ser ex- nos permite construir algo para além do que passou, inscrevendo o que não mais é: somos todos, em alguma medida, ex-algumacoisa. Ex-moradores, ex-namorados, ex-prefeitos, ex-esposas, ex-alunos, ex-viciados. Marcamos o que não é mais que nos constitui e abrimos a porta para o desconhecido. Porém, certas marcas acompanham a vida como um selo: não há ex-filhos, ex-pais, ex-brasileiros, ex-atravessados por uma história ou um passado. Então penso em como será a vida de um amnésico. Talvez se sintam mais leves, mais livres, por esquecerem qualquer tipo de ordem a qual estejam sujeitos. Eis aí o tiro de 12: o Desejo. Isso que faz com que nunca possamos ser ex-desejantes; posição concebida apenas aos mortos. Desejo...de sonhar, escrever, de esquecer, de nada desejar. Às vezes, desejo de lembrar, pois, sim, algumas coisas valem a pena ser revistas, para serem lidas com outras lentes, numa outra posição, quiçá, menos aterrorizante.

Buscar um lugar no qual aquilo que deseja ser lembrado, pode, enfim, retornar; sem tantas vírgulas e pontos pelo caminho, sem borrões ou páginas coladas, se escrevendo num texto corrido, fluente, ao qual nos entregamos a suas letras. Letras as quais se tornam, enfim, suportáveis. Podemos, então, sustentá-las com um corpo, num corpo, sem que doam como antes. De tudo aquilo que foi e pode continuar sendo, como ex-, como fala ou escrita, que já saiu da boca ou das mãos, já passou.