10 de julho de 2015

A Capa do Disco


Lembro do dia. Cursinho pré-vestibular, uma amiga me disse: 

– Sabe essa mulher na capa do disco dos Chili Peppers? 
– Ãh, que que tem ela?, respondi.
– Então, essa sou seu.

Eu não entendi bem, mas ela me explicou.  Disse que havia conhecido o Anthony Kiedis [vocalista da banda] pela internet, ela havia escrito para ele. De alguma forma que não sei explicar eles trocaram e-mails, frases, palavras. Estavam se relacionando. “Estou confusa”, me disse, “não sei como lidar com essa situação”. Os Chili Peppers vinham em turnê para o Brasil, iriam tocar no fim de semana seguinte e Ele desejava encontrá-la. Essa era a tal “situação” a que ela se referia – uma história cheia de particularidades, nuances, uma descrição viva e emocionada dos fatos virtuais, cercada de mistérios em sua voz. Minha amiga e o Anthony Kiedis! Um desses segredos que só contamos aos amigos, falando com cuidado para que ninguém ao redor possa ouvir.

Ela prosseguiu, dizendo que ele estava apaixonado por ela, e ela por ele. Um amor impossível; ele o vocalista de uma super banda, ela uma simplória estudante recém-saída do ensino médio. Eles, universos tão distintos, distantes no tempo, no espaço. Ainda segundo o relato dela, a maneira que ele encontrou de falar e expressar esse amor seria colocando o rosto e a fisionomia dela ali, na capa do disco “– mas assim, de maneira disfarçada, claro”, me explicou. Foi a solução de compromisso encontrada, entre o desejo e a censura, afinal, eles não poderiam correr o risco de a mãe dela e os demais familiares reconhecerem os traços desse amor na capa do disco. Uma narrativa comovente. E para a minha surpresa absoluta, eis que, tal como a carta roubada do conto de Edgar Allan Poe, o rosto da minha amiga do cursinho estava ali, disponível ao olhar de todos, disfarçado como o próprio retorno do recalcado, estampado no lugar mais óbvio, justo onde ninguém iria procurar: a capa do disco. “Ela sou eu, Rafa”.


Tão lacaniana minha colega de cursinho. Teria lido o estádio do espelho de Lacan, por acaso? Teria estudado seu esquema Lambda, se debruçado sobre o eixo imaginário, de a a a’, escrutinado a viagem rimbaudiana de “o eu é um outro”, isto é “o outro”, aquela imagem ali, “sou eu”? 

Com toda a ingenuidade do meu coração jovem, não levantei suspeita sobre história tão mirabolante, preferi ignorar que as pessoas fossem capazes de um tanto dizer em troca de alguma atenção e reconhecimento. Pensei: “essa história só pode ser verdade, tantas nuances, que coisa”. E quanto mais ela me contava detalhes, mais tudo passava a fazer sentido. Ah, sim, eu agora conseguia ver, afinal: a capa do disco e a fisionomia dela! É claro, tudo fazia sentido. Olhava para uma e para a outra. Era lógico...! Como pude não ver isso antes?


Hoje acordei e me lembrei dessa história. Saudades tantas coisas que não consigo dizer o nome. E de histórias como essa, que só existem em Maceió.

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