22 de abril de 2017

Cidade, Fantasma


And the sky was made of Amethyst.

Colada em uma das paredes do elevador, havia uma folha de papel A4. Nela se podia ver uma imagem da Marisa Monte, dessas retiradas da internet, impressa em preto e branco, e ao lado da genérica fotografia da artista podia-se ler dois versos atribuídos à cantora. O texto dizia: “Saudade não é sentir a falta de alguém. Saudade é sentir a presença de alguém em tudo”. O “em tudo” fica por minha conta. Já não sei mais se o texto terminava assim, mas a ideia é essa: encontrar a presença do outro nas coisas. Encontrar nas coisas o outro. Isto é, não encontrar as coisas elas mesmas, mas, nas coisas, em vez delas, presenciar a emergência do outro, como se presencia a emergência de um mergulhador que chega à superfície, irrompendo, triunfante, sabe-se lá de quais profundezas oceânicas. 

“Ter saudades”, assim dizemos. Talvez o “ter” das saudades fale da oblíqua experiência de sentir a presença do outro espalhar-se por avenidas e ruas. Presença maciça, ao mesmo tempo impossível de localizar. Você, prestes a se materializar;  a cada fresta, quando eu virar a esquina, sinto. Ou quando passar na frente daquele café, quando estiver saindo do estacionamento – aí sim vamos nos encontrar. A fantasmática presença fugidia do outro versado na arte de desaparecer.

Cidade fantasma. Bairro fantasma. Revejo tudo mais uma vez. Revejo tudo pela ótica da presença de sua ausência. Assim experimento um inquietante estranhamento que me acomete ao olhar a cidade onde nasci e me tornei adulto, cidade que era minha. Tão minha como as mãos que carrego no bolso da calça. Essa cidade onde agora eu não pareço mais pertencer a ela, na qual eu me tornei um estranho. E um mundo invisível, impalpável, se descortina no jogo de luz e sombra, de dias e noites em que você não está.

E foi assim que esperei por você no supermercado. Em cada corredor de compras: na seção de bebidas, de material de cozinha. Na ilha de frios, te esperei, faltante. Tal qual um náufrago perdido, me demorei pelos corredores, sem bússola. Por vezes fingi ter escolhido o produto errado e voltei só para ver se você teria chegado por algum caminho que eu não teria previsto. Quem sabe agora, pensei, ali, isso mesmo, ali, por aquele corredor, claro. A qualquer momento você virá. É certo. Contudo, você não apareceu. E as coisas insistiram em ser apenas coisas, sem você. 

Por um momento tive quase certeza de que era você entrando pela porta da frente enquanto eu estava na fila do caixa. Meu coração acelerou, mas só havia traços seus, espalhados em outros rostos, dispersos em outros corpos. Cheguei a me perguntar se uma certa pessoa que via diante de mim poderia ser você. Por que não?, pensava comigo. Bem que poderia ser, pensei novamente. E assim te esperei, sozinho, por horas a fio. Te esperei... até não precisar mais esperar.

Te esperei até que se fez hora, até que nos tornamos presença, de um outro tipo... na carne, viva. E toda ânsia silenciosa que existia em mim pôde enfim desaguar pelas mãos, trêmulas, testemunhas da presença do seu corpo, do seu nome. E um pedaço disso que se faz presente quando escrevo pôde tomar lugar junto ao seu corpo, e respirar por breves momentos, junto a você, e ao som da sua casa. Da boca umidecida, padeser um pouquinho, um tantinho, que não chega a ser suficiente, mas precisava ser o bastante.

O tempo passa. E mesmo depois de todos esses anos eu ainda me pergunto: who are you, stranger? O que é isso que você é, que esse corpo organiza, colocando em funcionamento a pequena máquina que responde pelo seu nome, essa máquina de peças soltas, feita de lábios e contornos, olhar, pontinhos e palavras? Teu corpo, essa imensa reticência. Que eu ajunto, na minha ficção, como uma criança que brinca com o jogo de ligar os pontos.

10 de dezembro de 2016

Is it a crime?


Or is it just waste of time?
Too much for too little...?

- Oh rightful ones. 
Satisfy the monster and perish at his hands.

A day...less than a night.
And yet I'm here.
And yet this lingers on, inside.
Outside.
Everyday. Everywhere.
And I miss...

10 de julho de 2015

Jogo Maldoso



Abro o Youtube e escrevo “Wicked Game Chris Isaak”. Entre as opções, clico em “HD Wicked Game - Chris Isaak [Official Video]”, dou play. Nos quatro minutos seguintes viajo aos confins do universo – passagem de ida, apenas, amigo. O retorno a este mundo não é garantido. 


Na canção, um homem diz que não quer se apaixonar...ou diz que quer? É possível definir isso ao ouvi-lo cantar o refrão? Que diferença faria se ele dissesse que quer... ou se dissesse que não quer? Afinal, o que diz esse homem? Sutilezas diabólicas a serem exploradas pelo pensamento humano. Procuro a letra no Google, uma versão online diz que ele quer se apaixonar, outra versão diz que ele não quer. Entre o bem-me-quer-mal-me-quer, fico com a segunda referência, do Lyrics007, me pareceu mais confiável; também me lembro de ouvir um amigo comentar com outro colega, numa festa há alguns anos atrás, que se surpreendeu ao procurar a letra da música e ter visto que ele dizia que não quer se apaixonar; como se dissesse ao outro, surpreso:  veja, cara, não é uma letra de amor! (Ou será?);  O cara está dizendo que não quer se apaixonar, ele tá se defendendo disso! 

Como, Chris Isaak, você conseguiu este feito? Como pôde construir um enigma tão perene que hoje, passadas mais de duas décadas, continua a interrogar aqueles que, inadvertidamente, o escutam, como um canto de sereias a seduzir e assombrar marinheiros desavisados?


Bem, então esse tal homem não quer(ia) se apaixonar? 
Penso comigo: “Imagina se quisesse; a bagaceira que seria essa música”. Reflito sobre como, no pico da paixão, os homens, indefesos, sem ter onde se esconder, sem saber sequer o que fazer consigo, apelam veementemente à negação, ou recorrem à dúvida. Quanto mais apaixonados, mais se perguntam, como Bob Marley, “Is this love, is this love that I am feeling?”. E tanto mais amam quanto mais se questionam, se será amor ou não, se estão apaixonados ou não, defendendo-se disso como se encurralados por um demônio que lhes enfiou um revólver na boca, com o dedo no gatilho prestes a ser disparado. 




Todavia, láctea, sou tragado de volta a realidade por um corte abrupto. Ao final de Wicked Game, o modo de execução de vídeos do Youtube lança automaticamente a canção seguinte (estratégia um tanto duvidosa para manter seus clientes online, no fluxo da audiência). E eis a lástima, estamos falando aqui de frações de segundos – as coisas mais importantes acontecem em frações de segundo. A próxima canção entra, furtivamente, e começa a rodar: James Blunt, “Beautiful”. Qual não é o meu baque... o abismo, o chão duro, áspero. Será possível, Youtube? Despenco em queda livre do alto da minha fantasia e sequer me ofereceram um paraquedas. Estremeço só de imaginar que esse Outro artificial põe em nível de equivalência, – na sequência de “Wicked Game” –, “Beautiful”, de James Blunt. Como se fossem objetos de igual valor, intercambiáveis, objetos que fazem parte da mesma série. Como se depois de ouvir Wicked Game alguém tivesse necessidade de perguntar as horas, ou onde está, quem se é. Como se depois de se questionar sobre o canto das sereias – única questão realmente séria nesta vida –, fossemos transportados ao interior de um ônibus em que algum vendedor ambulante lhe pergunta se você gostaria de adquirir suas deliciosas pastilhas pagando apenas R$ 1,00.


Respiro...
Penso em escrever uma carta ao Youtube, publicar uma pequena nota de repúdio. Ao final, desisto. Não saberia a quem endereçá-la. Penso, por fim, que ninguém se importa seriamente com a melhoria do critério que define qual próxima canção deveria ser executada na sequência de uma música que você escolheu anteriormente. É uma estrutura cega. Resigno-me a pensar que não há tanto saber no Outro quanto o suponho nesse mundo randomizado. O aleatório é apenas o aleatório, não é Deus tirando onda da sua cara. Decido não ficar chateado com o Youtube e aperto o botão de retorno, para os mistérios de Wicked Game.



A Capa do Disco


Lembro do dia. Cursinho pré-vestibular, uma amiga me disse: 

– Sabe essa mulher na capa do disco dos Chili Peppers? 
– Ãh, que que tem ela?, respondi.
– Então, essa sou seu.

Eu não entendi bem, mas ela me explicou.  Disse que havia conhecido o Anthony Kiedis [vocalista da banda] pela internet, ela havia escrito para ele. De alguma forma que não sei explicar eles trocaram e-mails, frases, palavras. Estavam se relacionando. “Estou confusa”, me disse, “não sei como lidar com essa situação”. Os Chili Peppers vinham em turnê para o Brasil, iriam tocar no fim de semana seguinte e Ele desejava encontrá-la. Essa era a tal “situação” a que ela se referia – uma história cheia de particularidades, nuances, uma descrição viva e emocionada dos fatos virtuais, cercada de mistérios em sua voz. Minha amiga e o Anthony Kiedis! Um desses segredos que só contamos aos amigos, falando com cuidado para que ninguém ao redor possa ouvir.

Ela prosseguiu, dizendo que ele estava apaixonado por ela, e ela por ele. Um amor impossível; ele o vocalista de uma super banda, ela uma simplória estudante recém-saída do ensino médio. Eles, universos tão distintos, distantes no tempo, no espaço. Ainda segundo o relato dela, a maneira que ele encontrou de falar e expressar esse amor seria colocando o rosto e a fisionomia dela ali, na capa do disco “– mas assim, de maneira disfarçada, claro”, me explicou. Foi a solução de compromisso encontrada, entre o desejo e a censura, afinal, eles não poderiam correr o risco de a mãe dela e os demais familiares reconhecerem os traços desse amor na capa do disco. Uma narrativa comovente. E para a minha surpresa absoluta, eis que, tal como a carta roubada do conto de Edgar Allan Poe, o rosto da minha amiga do cursinho estava ali, disponível ao olhar de todos, disfarçado como o próprio retorno do recalcado, estampado no lugar mais óbvio, justo onde ninguém iria procurar: a capa do disco. “Ela sou eu, Rafa”.


Tão lacaniana minha colega de cursinho. Teria lido o estádio do espelho de Lacan, por acaso? Teria estudado seu esquema Lambda, se debruçado sobre o eixo imaginário, de a a a’, escrutinado a viagem rimbaudiana de “o eu é um outro”, isto é “o outro”, aquela imagem ali, “sou eu”? 

Com toda a ingenuidade do meu coração jovem, não levantei suspeita sobre história tão mirabolante, preferi ignorar que as pessoas fossem capazes de um tanto dizer em troca de alguma atenção e reconhecimento. Pensei: “essa história só pode ser verdade, tantas nuances, que coisa”. E quanto mais ela me contava detalhes, mais tudo passava a fazer sentido. Ah, sim, eu agora conseguia ver, afinal: a capa do disco e a fisionomia dela! É claro, tudo fazia sentido. Olhava para uma e para a outra. Era lógico...! Como pude não ver isso antes?


Hoje acordei e me lembrei dessa história. Saudades tantas coisas que não consigo dizer o nome. E de histórias como essa, que só existem em Maceió.

1 de abril de 2013

Um instante com Maria



Pela escada rolante meu corpo imóvel se desloca em sua efêmera travessia. Anos de engrenagens sutis anteriores à minha existência ali trabalharam. Correm mãos, apoio minhas pernas em um de seus degraus ambulantes, fadados a repetir o mesmo caminho, num vai e vem em curto circuito. A escada rolante, em sua repetição, desconhece diferenças e ignora tudo aquilo que por ventura anima a cadência dos passos que lhes são oferecidos diariamente. A escada rolante, em sua inteligência subterrânea, me fazer descer, corpo abaixo, rumo à estação. Entrego-lhe meu corpo em pedaços e deixo meu quadril deslizar, encostando-o contra aquilo que em seu apurado maquinário insiste em se manter quieto, pois algo precisa permanecer para que tudo mais possa se movimentar.


Sem jamais saber quem vamos encontrar no contra-fluxo da escada que sobe, seguimos, em direção aos pequenos abismos chamados estações. Nós, seres humanos, gostamos de nos enfiar em buracos. Nos empenhamos em transitar por túneis e escavações escuras, sombrias, artificialmente iluminadas. Nós, seres apalavrados, não sabemos o que fazer com nossos buracos. Diante de tudo aquilo que nos faz ausência, passamos a vida tentando responder à pergunta: o que fazer com os buracos? Mind the gap, dizem alguns. Cada um responde à pergunta com seu próprio estilo.




Em um momento, vejo Maria. Nossos olhos se cruzam, e antes que eu possa perceber, ofereço-lhe as mãos e a minha voz. Sua escada sobe, a minha desce, não tenho muito tempo. Num aceno tímido, lhe digo: "Maria Rita Kehl". O Kehl de Maria parece escorregar de minha boca, caidiço: "Maria Rita Keehl", falo, à minha revelia, baixinho. Dou-me conta que acabo de dizer à Maria Rita Kehl seu próprio nome. Digo-o à Maria ou a mim mesmo? Por que digo ao outro seu próprio nome? Poderia ter lhe dito tantas outras coisas... mas foi o nome dela que falou em mim!, se antecipando furtivamente à minha capacidade de pensar o dito. Talvez tenha sentido a necessidade ligar a imagem à palavra, como alguém pego de surpresa precisa avisar aos outros: "Ali, Maria Rita Kehl". Dou-me conta, consequentemente, que os registros da imagem e da palavra caminham sempre em descompasso. Maria, dedicando-me um instante de seu olhar, sorri, acolhendo meus balbucios e segue, corpo acima, por caminhos que desconheço.

15 de janeiro de 2011

Boreal

Sendo assim
Sem demora pra me sentir
Como agora tão sem fim
Tão melhor, o maior sobre mim
Tão feliz que sou
Só resta a mim cantar o amor


♪ Aurora ♫ – Dani Black

26 de março de 2010

Star(t)

Discurso de Emanuel Belarmino, orador da turma de Psicologia 2009 da UFAL.
25/03/2010.

Ilustríssimo Senhor Professor Doutor Eurico de Barros Lobo Filho, Vice Reitor da Universidade Federal de Alagoas no exercício da reitoria a quem peço licença para, em nome do Professor Jefferson de Souza Bernardes, paraninfo desta turma e coordenador do curso de Psicologia, cumprimentar todos os demais componentes da mesa.

Minhas senhoras, meus senhores, meus Caros colegas!

UFA. Finalmente! Não teria como começar senão desta forma, até porque após 6 anos (ou 2.191 dias, 72 meses, e 313 semanas, para ser mais exato) de intensa rotina acadêmica, é impossível não manifestar certo alívio ao avistar a linha de chegada. Mas apesar de iniciar minha fala citando alguns números que marcaram nossa caminhada, não nos reunimos aqui para celebrar o tempo, ou tudo o mais que possa ser medido, explicado ou conceituado. O que realmente importa, neste momento, é relembrar o que não podemos mensurar, muito menos classificar. Tudo aquilo que aos olhos (e ouvidos) de muitos pode parecer inútil. Todas as coisas que, ainda bem, não servem para absolutamente nada além de serem sentidas e vividas, ultrapassando totalmente os muros e os limites do tempo.

Engraçado que quando recebi o convite para representar minha turma e comecei a escrever o que iria falar hoje, percebi que não conhecia o real significado da palavra caminho. E ainda hoje, quando olho para todo o nosso percurso, a confusão persiste. Afinal, o caminho estava pronto ou nós o construímos? A pergunta pode até parecer simples, mas sua resposta não o é. Apesar da confusão, escolhi a segunda opção pelo simples fato de entender que, assim como o caminho, as palavras também foram construídas. Na verdade, diria que elas foram dançadas, mais precisamente, inutilmente vividas, onde dicionário algum possa alcançar seu sentido.

Sendo assim, quais palavras dançamos? Que inutilidade é essa que vale tanto a pena ser dita?

Acredito que a primeira palavra que poderíamos citar é incerteza. Tudo era incerto ao entrarmos no curso; tentamos nos achar, procuramos horizontes mais claros, lugares seguros. Apegamo-nos aos grupos, muitas vezes fechando-nos neles e achando que para dançarmos precisaríamos apenas de algumas pessoas, especialmente aquelas com as quais nos dávamos bem, que sempre conversávamos e fazíamos os trabalhos juntos. Mas até aí, qual o desafio?

É muito fácil lidar apenas com as pessoas que partilham do mesmo modo de ver o mundo, dos mesmos sonhos, dos mesmos gostos. Muito cômodo, diria. Não precisamos sair de nossa zona de conforto. Mas, ainda que a diferença por vezes incomodasse e a segurança dos grupos acomodasse, não pegamos atalho. Escolhemos o caminho mais longo e difícil: aquele em que as diferenças foram sistematicamente afirmadas e reafirmadas, expressas seja na forma de escolhas teóricas distintas ou mesmo no modo como cada um aqui compreende o que é Psicologia. Estas diferenças, acreditem, ainda estão aqui. E que bom que estejam, pois foi por meio deste encontro diário com o outro e suas peculiaridades que aprendemos a maior lição de nossas vidas: aprendemos a não apenas respeitar o outro, mas de nos encontramos com ele. Fico muito feliz em saber que conseguimos transformar nossa maior dificuldade em aprendizado e que a dimensão de encontro continuará presente em nosso dia a dia, atravessando nossa atuação de agora em diante.

Tivemos também outros parceiros de dança, pessoas que acompanhavam nossos passos há mais tempo. Então, como não associar as palavras confiança, amor e apoio a nossos familiares? E quando falo em família refiro-me a todos aqueles (amigos, namorados ou namoradas, pais, mães, avós, avôs, tios e tias) que nos fizeram viver uma enorme quantidade de palavras. Quem de nós não irá lembrar-se daquela pergunta ao fazermos a inscrição no curso de Psicologia: mas é isso mesmo que você vai fazer?

Mas a melhor parte era quando as palavras não eram ditas e, no lugar dessas, sentíamos que acreditavam em nós, que nos amavam independente de nossas escolhas. Seja qual for a forma ou modelo de família que cada um tenha, todos nós tivemos, sim, amor, confiança e pessoas que acreditaram em nós. Disto, acreditem, teremos sempre que nos orgulhar e agradecer.

Acho que quando se fala em algo que foi expresso muitas vezes sem o uso de palavras, a importância de nossos mestres apresenta-se em toda a sua inteireza, já que o que verdadeiramente importa – não só na profissão que escolhemos, mas na vida – é aquilo que compartilhamos nas experiências, sem a necessidade de que alguém nos explique. Não que as explicações não tenham valor nem importância, mas não bastariam para entendermos a dimensão da palavra compromisso.

Esta palavra, que a primeira vista pode parecer rígida demais, daquelas usadas especialmente quando se exige um determinado tipo de postura e comportamento de alguém, atravessou nossa formação com outro sentido: aprendemos que a palavra compromisso exige de nós, antes de mais nada, verdade e autenticidade. Exige de nós nossa condição de pessoas que valorizam e respeitam o outro como homem, não o remetendo a limites e definições. Acho que em algum lugar isto foi explicado como ética, e tivemos a felicidade de aprender bem mais do que um conceito abstrato. Aprendemos a conjugar a ética em nossas ações cotidianas. Tivemos a felicidade de compreender também que não basta ter um currículo bonito, um lattes bem feito, pois, por mais valorizados que sejam, não bastarão para estarmos implicados, mergulhados verdadeiramente no compromisso de sermos e de sempre nos refazermos profissionais.

Não há como não lembrar o célebre Riobaldo, personagem-narrador de “Grande Sertão: Veredas”, que nos advertiu uma vez: “Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.”. A autoria desta frase, originalmente do grande escritor Guimarães Rosa, poderia ser atribuída a qualquer um dos professores que nos conduziram ao longo destes 6 anos de graduação. De uma forma ou de outra, foi este o ensinamento que reverberou em cada uma das disciplinas que formaram nosso currículo: o conhecimento não se mede pela quantidade de respostas prontas que somos capazes de carregar na ponta da língua; aprendizado maior, meus amigos, é cultivar perguntas. E acreditem: nós aprendemos. E foi a partir deste aprendizado do que significa ser comprometido que crescemos e hoje estamos aqui podendo não só chamá-los de professores, mas agora de colegas, parceiros de profissão. Continuaremos sempre juntos, na busca por uma atuação mais presente na vida das pessoas.

Infelizmente ainda somos parte de uma minoria que teve (e tem) o privilégio de estar numa universidade. Não foram poucas as vezes que tivemos as aulas interrompidas por pessoas que não tinham o que comer, beber, vestir, nem mesmo acesso à satisfação de suas necessidades mais básicas. Cito este exemplo não para sugerir que somos melhores ou superiores a essas pessoas, mas para pontuar o quanto estas “interrupções” nos ensinaram sobre o valor de uma atuação ampla e comprometida com o outro. Tenho certeza que ninguém aqui irá se considerar um Psicólogo pelo simples fato de estar intitulado e que diante de todas as mudanças que passamos não será apenas o saber que nos garantirá o verdadeiro exercício da profissão.

E o que falar então da palavra amizade? Acredito que esta seja uma das grandes construções que fizemos juntos, alicerçada em base sólida e resistente à corrosão da falta de tempo e da distância que poderão nos fazer presentes de agora em diante. Em nosso caminhar acadêmico, o que mais precisamos foram de pessoas não apenas para trocar idéias, mas para compartilhar a fundo cada passo que demos. É inegável o quanto uma palavra amiga foi importante, o quanto um diálogo verdadeiro foi necessário, o quanto uma confidência ajudou a superar algum obstáculo. Criamos vínculos e laços profundos que levaremos para sempre. É como diz o Poeta Fernando Pessoa: “O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis!”

E o que falar da palavra crise? Aquelas três letrinhas que tão bem conhecemos representam bem esta palavra, mas acho melhor não mexer mais nelas. Apesar de um contorno negativo, nunca vi palavra tão necessária. Muitas vezes prejudicial, ela de alguma forma nos moveu, nos tirou de uma condição de passividade, da mesmice que o medo do fim nos causa. Acho que ainda estamos dançando essa palavra; talvez a dancemos sempre. Ainda bem.

Junto à crise, quase que como uma irmã gêmea, vem à palavra superação, derrubada de obstáculos, certeza de que fomos capazes e merecedores. Transformamos os medos e as incertezas em certezas e confirmações.

Agora uma coisa eu tenho que confessar. Pode até parecer estranho, mas... Eu não sei definir o que é Psicologia. E como eu não sou louco de tentar explicar, sozinho, o que em seis anos, felizmente, não consegui, pedi ajuda à minha amiga Juliana nesta tarefa difícil, já que ao invés de explicar pretendo expressar. Sendo assim, peço licença ao presidente da mesa para, neste momento, compartilhar um poema com toda a minha turma.

Psicologia, se a própria palavra falasse gritaria HUMANIDADE, que com ela obtivemos.
HUMANIDADE que aprendemos com os humanos, professores e colegas.
HUMANIDADE que da loucura só ficou a cura.
HUMANIDADE que nos faz acordar, caminhar e enfim voar.
VOOS em vontade e determinação;
VOOS excitantes, na coragem e viagem que faremos;
VOOS naturais que de tão normais nos deixaram loucos;
VOOS conflitantes entre EU e um TU que se esconde e aparece para nos provocar;
VOOS que nos tiraram de órbita e nos revelaram a um universo de possibilidades;
VOOS rasantes e mesmo que errantes nos impulsionaram a voar;
VOOS utópicos, ávidos por mudar o mundo e a essência;
VOOS inconstantes que desbravaram a certeza e a possível razão de ser;
VOOS per-feitos e re-feitos por humanos em demasia;
VOOS entre idéias e ações que nos levaram até o limite.
Se temos asas para voar?
Fechem os olhos, já voamos 06 anos: agora somos psicólogos!
Enfim voemos!

Muito Obrigado!
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...pressinto que amanhã vai faltar jaca!

1 de fevereiro de 2010

Cinematerapia

Steven Spielberg tinha 24 anos quando dirigiu Encurralado. Tinha trabalhado na televisão (um episódio do seriado Columbo servira como seu cartão de visita), mas ninguém era capaz de prever que ele daria um tratamento tão precioso ao filme. Mais do que o caminhão, mais do que o motorista num crescente de pavor interpretado por Dennis Weaver, o diretor é a estrela de Encurralado. Como ao ler as primeiras páginas de um grande romance, você sente que está diante de um talento enorme, incalculável. Um talento que não poderia se pressupor nem se considerar tão esperto. Imagino que foi isso que Spielberg quis dizer alguns anos atrás, quando falou a um jornalista que tentava rever Encurralado a cada dois ou três anos, “para me lembrar de como fiz aquilo”. É preciso ser jovem, ele sugeriu, para demonstrar uma confiança tão arrogante.

É fácil entender por que os executivos dos estúdios deram uma olhada em
Encurralado e lhe ofereceram a direção de Tubarão (1975), alguns anos depois. Se Spielberg era capaz de tornar um caminhão assustador, imagine o que poderia fazer com um tubarão. (Que, como o motorista do caminhão, fica a maior parte do tempo invisível. Vemos apenas as conseqüências: um cão que desaparece, uma garota que é puxada subitamente para dentro d’água, uma boia explodindo na superfície, coisas que anunciam a presença do perigo, mas nunca mostram sua face. Jovem ainda, Spielberg teve a intuição de que, se você quer assustar as pessoas, deve deixar a imaginação delas fazer o trabalho pesado) (p. 83).
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O Clube do Filme - David Gilmour

28 de janeiro de 2010

Útero

Depois se virou, aproximou-se de Pedro Cantos e fez aquilo para que tinha vivido. Encolheu-se contra as costas dele, puxou os joelhos para perto do peito, juntou os pés até sentir as pernas perfeitamente alinhadas, as duas coxas suavemente unidas, os joelhos como duas xícaras em equilíbrio uma sobre a outra, os tornozelos separados por um vão: apertou um pouco os ombros e fez as mãos escorregarem, juntas para o meio das pernas. Olhou-se. Viu uma velha menina. Sorriu. Concha e animal.

Então pensou que, por mais incompreensível que seja a vida, provavelmente nós a cruzamos com o único desejo de retornar ao inferno que nos gerou, e de viver ali, ao lado de quem, uma vez, nos salvou daquele inferno. Tentou pensar de onde vinha aquela absurda fidelidade ao horror, mas descobriu não ter resposta. Compreendia somente que nada é mais forte do que o instinto de voltar para lá onde nos despedaçaram, e de repetir aquele instante por anos. Pensamos apenas que quem nos salvou uma vez pode depois nos salvar para sempre. Num longo inferno idêntico àquele de onde viemos. Mas inesperadamente clemente. E sem sangue. (p. 79-80)
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Sem sangue – Alessandro Baricco

27 de janeiro de 2010

"Frases finais para O Livro da Memória"

De uma carta de Nadiejda Mandelstam para Óssip Mandelstam, datada de 22/10/38, e nunca enviada.

Não tenho palavras, meu querido, para escrever esta carta [...]. Eu a escrevo no vazio. Talvez você volte e não me encontre aqui. Então isto será tudo o que terá restado para você se lembrar de mim [...]. A vida pode durar muito. Como é difícil e demorado para cada um de nós morrer sozinho. Será mesmo este o nosso destino, nós que somos inseparáveis? Filhotinhos de cachorro e crianças, será que merecemos isto? Você merece isto, meu anjo? Tudo continua como antes. Não sei de nada. Mas sei de tudo - todos os dias e todas as horas da sua vida se mostram claros e nítidos para mim como em um delírio - em meu último sonho, eu comprava comida para você no restaurante de um hotel vagabundo. As pessoas a meu lado eram totalmente desconhecidas. Depois que comprei a comida, me dei conta de que não sabia para onde levá-la, porque não sei onde você está [...]. Quando acordei, disse para Chura: 'Osia morreu'. Eu não sei se você ainda está vivo, mas, desde a época daquele sonho, perdi sua pista. Não sei onde você está. Será que vai me ouvir? Sabe o quanto amo você? Eu nunca conseguirei dizer o quanto amo você. Não consigo nem mesmo agora. Falo para você, só para você. Você está comigo sempre, e eu que fui tão turbulenta e furiosa e que nunca aprendi a chorar como todo mundo - agora choro e choro sem parar [...]. Sou eu: Nádia. Onde está você? (p. 191).
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A invenção da solidão - Paul Auster
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p.s.: não canso desse livro.
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. na vitrola: victoria petrosillo - la bonne personne .